Museo-oquê?

19 de julho de 2014

Maior Centro Cultural do Rio de Janeiro: CCBB.

Museologia gente. Museólogo. 

Reparei que nunca falei abertamente sobre o que eu estudo, sobre o que eu faço e pretendo continuar fazendo da vida por aqui. Em todos os blogs que eu leio, ou pelo menos 85% deles, fica muito claro durante a leitura dos posts o que a pessoa faz/ trabalha/ estuda, porque é um assunto bem corriqueiro e que acaba aparecendo com facilidade no blog. Meu blog nem tem uma tag relacionada com museu. Então decidi criar logo três novas aos quais inauguro com esse post, são elas: arte; museu; museologia.

Fiquei com vontade de falar aqui exatamente o que eu faço e estudo, porque bem dizer todas as pessoas que um dia me perguntaram o que eu estudo ficaram surpresas com a resposta, pois não sabiam da existência desse curso nas faculdades, e quando eu respondo dizendo Museologia, elas sempre, sempre, sempre, respondem "Museo-oquê?", então eu falo o nome do curso novamente seguido de uma pequena explicação "Museu, sabe? Centro cultural, arte e afins", a pessoa solta aliviada um "ahhh" por ter compreendido.
O problema é que a pessoa entende com o que eu trabalho mas não exatamente o que eu faço, as pessoas tem uma ideia muito vaga (e estou sendo simpática com elas) de como funciona um museu. Teve uma pessoa, e essa pessoa marcou minha vida para todo o sempre, que soltou um "nossaaaa, que legal, nossa" quando falei o que estudava que eu que fiquei num "nossaaaaa, que legal, ela conhece e curtiu!", a pessoa ficou amarradíssima que eu estudava isso que eu fico feliz só de lembrar haha. Mas esse foi um caso muito isolado e diferente do resto. Então vamos lá.

Um museu não se monta sozinho nem se sustenta/ coordena só com os vigilantes e monitores que você vê na recepção e nas salas de exposição, é uma grande estrutura como qualquer outro local, seja um barzinho ou uma empresa, nada se constrói sozinho, inclusive nem uma exposição, um museu.
Aquelas peças expostas (na maioria dos casos) fazem parte da coleção do museu, é o acervo dele. Para uma peça entrar em museu existe toda uma papelada (pelo menos deveria existir) e na faculdade nós aprendemos um pouco sobre isso, quando estudamos documentação ou ciência da informação. Precisamos saber quem era o proprietário, se foi comprada ou doada, avaliar a importância dela e de que forma ela acrescenta para a coleção já existente da instituição, se ela já passou por algum processo de restauração e como ela vem sendo conservada ao longo dos anos, entre muitas outras coisas. Cada peça também tem uma ficha catalografica, que contém todas as informações básicas dela: material feito; ano; autor; se já participou de alguma exposição; se já saiu do museu; se apareceu em algum livro; informações deixadas pelo autor; se já sofreu restauração... A parte de documentação é densa e essencial para o bom funcionamento de um museu.

Nós museólogos também podemos ser chamados de Conservadores, porque nós lidamos diretamente com a conservação de cada peça do acervo. Existe um local chamado Reserva Técnica (ou também deveria existir) onde ficam todas as peças do museu que não estão expostas, o caso é que elas não podem ficar de qualquer jeito (ou não deveriam - esse monte de parênteses só mostra a realidade dos nossos museus, tristeza), sendo que cada peça é feita de um material específico e precisamos deixar elas bonitinhas o máximo de tempo possível, para isso elas precisam ficar bem conservadas, coisa que nós fazemos.
 
Existe também o setor educativo, os monitores que vocês esbarram nas exposições fazem parte desse setor. É preciso ter educadores/ monitores bem preparados para receberem quem tem visita marcada, sejam grupos escolares, grupo de idosos ou qualquer outro grupo. Quando montamos nossa exposição curricular no fim da nossa formação lá na faculdade, a turma se divide em grupos (minha turma se dividiu em três) e cada grupo escolhe um público que quer trabalhar. Eu fiquei no grupo de deficiente visual. Estudamos, pesquisamos e nos esforçamos para preparar uma exposição que fosse acessível para eles. Foi muito marcante para a minha formação, saber enxergar e me colocar no lugar dos diferentes públicos, trabalhar com a acessibilidade.

Além disso tudo tem a gestão do museu em si. Entrada e saída de material, de estagiários, qual empresa contratar para montar a próxima exposição, etc.

Existe muita coisa para fazer na nossa área e isso acaba sendo um caos, a gente estuda tanta coisa! Nossa grande curricular é bem louca e o curso é integral. Estudamos arte desde a arte primitiva até a contemporânea. Estudamos Comunicação. Ciência da Informação. Conservação. História (do Brasil, Moderna e Contemporânea). Arqueologia. Antropologia. Paleontologia. Filosofia. Epistemologia. Sociologia. Museologia em si. 
As pessoas ficam meio perdidas sem saber o que fazer da vida. Pois é gente, existe opção.
 

Essa foto nem é minha (e não lembro onde peguei), mas postei no meu facebook e foi minha foto que mais recebeu compartilhamento na vida, mais 300. Só deixa claro o tamanho da dúvida dentro da minha área e os milhares de museólogos arrumando alguma maneira de respondê-la.




Infelizmente não, o mercado não é dos melhores, ainda mais que a questão de QI é bem forte, nem o salário é alto, o que é bem frustrante. A gente estuda pra caraca, pega umas grades bem loucas, puxando matéria noturna para conseguir se formar no mínimo em 5 anos (mas na teoria deveríamos nos formar em 4), tentando conciliar estágio + faculdade + bolsa (no meu caso) para não virar mito dentro da UNIRIO e no fim recebemos uma remuneração bem da maromenu.

No fim das contas sou apaixonadíssima pela minha área, como também tenho amigos que são frustrados por estudarem isso, mas acho que tem disso em toda área. 
Apesar de todos os pesares é o que eu amo fazer, amo estudar, lidar, trabalhar.

O engraçado (ou não HA HA HA) é que a Museologia é tipo um clube, porque é uma área muito da pequena, aqui no Rio de Janeiro esse curso só existe na minha faculdade, em São Paulo por exemplo não tem, só mestrado, daí que todo mundo que eu conheço que é formado ou estuda Museologia, é óbvio, é lá da UNIRIO, então a gente fala do curso, dos professores, disciplinas, da faculdade em si e se compreende total. Qualquer estágio que eu pegar e tiver outro estagiário ele vai ser da mesma faculdade que eu. Minha chefe vai ter feito a mesma faculdade que eu, sendo que nas outras áreas, isso óbvio, não é normal.
Minha irmã Ester faz Engenharia na UFRJ e eu penso que quando ela começar a estagiar/ trabalhar ela vai esbarrar com pessoas do mesmo curso sim que ela, porém, de diferentes faculdades, como, hm... todo mundo! Mas não a gente.
Então Museologia é assim um mini clube de loucos que um dia entraram na UNIRIO e tão aí.
 
Prazer, agora você conhece e meio que compreende mais a gente.

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1 comentários

  1. Nossa, nem euzinha sabia que tinha isso tudo de coisas.
    Agora conheço melhor. E você esqueceu que também podem virar blogayros aushuahsua
    aiai, bjo

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